segunda-feira, Janeiro 30, 2006

A Escola Fisiocrática

Quando os fisiocratas iniciaram a sua actividade teórica, a economia política ainda não estava separada da política económica – era ainda, e apenas, um capítulo da arte do governo. Com os fisiocratas termina a época dos percursos e inicia-se a época dos fundadores da ciência económica. Assim, os fisiocratas foram não só uma escola de pensamento económico, como uma escola de acção política. A ideologia fisiocrática inspirou algumas páginas da Enciclopédia, de Diderot, e alguns aspectos da Revolução Francesa de 1789.
Dupont de Nemours definiu a fisiocracia como a ciência da ordem natural. A doutrina fisiocrática faz parte da família dos sistemas de direito natural; os autores fisiocratas pretendem construir não só um sistema económico, mas uma sociologia geral. A sua noção de ordem natural significava simplesmente que eles consideravam que as sociedades humanas eram regidas por leis naturais como as que governam o mundo físico e a vida de qualquer organismo. Na “Introdução às obras de Quesnay”, Dupont de Nemours diz: “A ordem natural é a constituição física dada por Deus ao universo”. Mas os estudos dos fisiocratas não explicam os fenómenos económicos por analogias circunstanciais ou artificiais com as ciências da natureza: fundamentam-se em factos e utilizam argumentos de natureza económica.
Esta constituição física dada por Deus ao universo, esta ordem natural, é uma ordem providencial. Segundo Quesnay, as leis da ordem natural não restringem a liberdade do homem e são a melhor condição dessa liberdade. Precisamente porque esta ordem natural tem umcarácter providencial, supranatural, é que ela se apresenta aos fisiocratas como evidente, universal e imutável. Era a mesma para todos os homens e para todos os tempos. Não basta conhecer esta ordem natural, é preciso obedecer-lhe. Mas isso não oferece qualquer dificuldade, dado que a ordem natural é evidentemente a mais vantajosa para o género humano, diz Baudeau. Cada indivíduo saberá, natural e livremente, encontrar o caminho que lhe é mais vantajosos. É desnecessária qualquer coacção social. O homem não deve intervir nesta ordem natural. Sem a sua intervenção, o mundo marcha por si mesmo. É a doutrina do laisser faire, que não significava, todavia, que um governo nada tivesse a fazer: cabia-lhe suprimir os entraves criados à ordem natural, assegurar a propriedade e a liberdade, descobrir as leis naturais e ensiná-las.
Os fisiocratas consideram que os resultados da livre concorrência não podem deixar de ser benéficos; refutam a ideia de uma balança de comércio favorável porque entendem que a acumulação da moeda num país faz subir naturalmente os preços; afirmam que as tarifas alfandegárias proteccionistas são muitas vezes prejudiciais ao país que as estabelece.
Para os fisiocratas, só a agricultura é produtiva, dado que só a agricultura tem a possibilidade de produzir uma quantidade de riqueza superior à que consome. Consideravam estéreis tanto a indústria como o comércio. Entendem que só pode ser legitimamente considerado como riqueza o excedente que esta riqueza representar em relação ao consumo de riqueza que aqueles encargos representam. Ao excedente obtido na operação produtiva deram os fisiocratas o nome de produto líquido. Este produto líquido é exclusivo da produção agrícola. Só a agricultura cria realmente riqueza, porque nela ao trabalho produtivo se junta a fecundidade da terra: Deus é o único produtor (Dupont). O comércio e a indústria são classes estéreis na medida em que ganham, mas não produzem. Verdadeiramente, só a agricultura produz e nem mesmo a própria exploração mineira oferece um produto líquido semelhante ao da agricultura.
Os fisiocratas, que definiram riqueza como a totalidade dos bens comercializáveis produzidos anualmente (Quesnay), estabeleceram uma síntese teórica da distribuição dos rendimentos: pretenderam demonstrar que as riquezas circulam na sociedade por elas próprias, de uma classe para a outra. Quesnay distinguia três classes sociais: a classe produtiva, composta pelos agricultores; a classe proprietária, que abrangia não só os proprietários, mas igualmente os que exerciam, a qualquer título, a soberania; a classe estéril, que englobava os que se dedicavam à indústria, ao comércio e às profissões liberais. No seu Quadro, Quesnay descreveu como os rendimentos se distribuíam desigualmente por estas três classes.
O objecto do Quadro era ilustrar a teoria fisiocrática fundada sobre o princípio de que a única fonte de riqueza provinha da agricultura, nos termos de Quesnay, da classe dos agricultores. O ponto de partida do ciclo económico descrito na obra era, portanto, a riqueza produzida pela classe agrícola. O Quadro mostrava como esta riqueza se repartia: a classe agrícola conservava uma parte das riquezas que produzira para a sua própria manutenção e para assegurar a reprodução da riqueza. Uma outra parte dos bens produzidos, ou as quantias em dinheiro que lhes correspondiam, era transferida para a classe proprietária. A classe agrícola tinha de comprar bens industriais ou de pagar serviços à classe estéril. A classe estéril utilizava o dinheiro que recebera das suas vendas e serviços às outras classes na sua subsistência e na compra de matérias-primas necessárias à sua indústria. Em ambos os casos, as somas recebidas pela classe estéril eram recuperadas pela agricultura.
Os fisiocratas defendem a liberdade de trabalho e a liberdade de dispor dos produtos do trabalho. Apesar de subestimarem a actividade comercial, defendem a liberdade de comércio, a livre concorrência, fiéis à ideia de que a liberdade gera o bom preço. Quesnay, contudo, recomenda a regulamentação da taxa de juro, cuja liberdade repele como prejudicial aos interesses da agricultura. Em matéria de política fiscal, e porque é a terra que realmente produz riqueza, entenderam que é sobre a actividade agrícola que deve recair o imposto. Sob o aspecto político, mostram-se favoráveis ao chamado despotismo ilustrado e pensam que no Estado devem prevalecer os interesses dos proprietários rurais, com os quais o soberano é solidário, dado que é o co-proprietário dos produtos líquidos da nação.

O mercantilismo

Chama-se mercantilismo ao conjunto de ideias e práticas económicas que floresceram, na Europa, entre 1450 e 1750. Uma tríplice transformação, de ordem intelectual, política e geográfica, assinala, na aurora desse período, o início dos tempos modernos.
É a época do Renascimento. O pensamento laiciza-se. Esta evolução, que se inicia no século XIV, na Itália, com Petrarca, que Renan denominou, com justeza, o primeiro homem moderno, prossegue com Erasmo, o grande humanista desde o fim do século XV, e a partir dos primórdios do século XVI espalha-se pelo mundo, com Rabelais. À curiosidade intelectual se junta uma vontade de criar em todos os domínios.
A este espírito da Renascença convém associar o trazido pelo movimento da “Reforma”. Não a de Lutero, que permanece medieval e estática, mas a de João Calvino, dos calvinistas, e dos puritanos anglo-saxões, que exalta o individualismo e a actividade económica. O dogma calvinista da predestinação concilia-se com o êxito material do indivíduo, estimulando a sua actividade económica, condenando a sua ociosidade, apelando para a sua consciência profissional, justificando os seus sucessos nos negócios e, portanto, a busca do lucro. Estas características do espírito da Reforma levam a aproximá-la do espírito “capitalista”.
No século XVI assiste-se ao surgimento do Estado Moderno. A centralização monárquica vai tomando o lugar dos pequenos núcleos feudais. A Idade Média teve, sem dúvida, o seu sistema de Estado. Mas, pelo facto de não passarem de aglomerações feudais, não possuíam uma verdadeira política nacional. Foi a suplantação desta forma de Estado que fez surgir a ideia de economia nacional no sentido moderno da expressão, ou seja, a concepção de Estado que coordena todas as diferentes forças activas da nação. O comércio, principalmente, transforma-se em negócio público. A noção de “balança comercial” suplanta a de “balança de contratos”.
O fim do século XV marca o início da era das grandes descobertas e com ela o fenómeno mais importante deste período. O afluxo de metais preciosos, a que dá origem, vai determinar duas consequências essenciais para o pensamento económico:

- o desenvolvimento de ideias interessantes sobre a moeda;
- a possibilidade de elaboração da concepção metalista, base dos sistemas mercantilistas.

1. As ideias económicas e monetárias
1. 1. As ideias referentes à moeda
Verifica-se, no século XVI, na Europa, um considerável afluxo de metais preciosos. Nessa mesma época, os preços experimentaram uma rápida e considerável alta, que transforma e desequilibra as condições da vida económica e social. Os trabalhadores, principalmente, são seriamente atingidos pelo fenómeno. A sobrevivência das ideias medievais do “justo preço” e “justo salário” cristaliza a taxa dos salários, a despeito da elevação do custo de vida, em nível imutável. O descontentamento generaliza-se e a opinião pública inquieta-se. Era opinião de todos quantos nessa época se interessavam pela vida económica terem as mutações monetárias parte na elevação do nível dos preços. De Malestroit, num relatório apresentado ao Rei Carlos IX em 1566 afirma que não houve realmente elevação do preço; a alta seria apenas aparente, ocasionada pela redução do valor das moedas. Contra esta tese vai insurgir-se Jean Bodin. Com o auxílio das estatísticas, Bodin demonstra ser a elevação dos preços superior à redução havida no valor das moedas e a verdadeira causa do fenómeno residia no enorme aumento do stock monetário de metais.
A abundância de metais preciosos não constitui apenas o fundamento dessa controvérsia sobre a moeda, mas é, ainda, a determinante de uma concepção central do mercantilismo: a ideia metalista.

1. 2. A ideia metalista
Esta ideia foi deduzida pela seguinte observação: a prosperidade dos países parece estar na razão directa da quantidade de metais preciosos que possuem. Daí nasce a convicção – predominante nos séculos XVI e XVII – de serem riqueza e quantidade de metal precioso, possuídas por um país, expressão de um só e mesmo fenómeno. Os mercantilistas não vêem o ouro e a prata como “a única riqueza”, mas os consideram como “o mais perfeito instrumento de aquisição da riqueza”. No entanto, foram muitos os mercantilistas que confundiram a riqueza com o dinheiro. Até aos primórdios do século XVII, principalmente, era muito comum essa confusão em autores espanhóis, italianos e ingleses.
Em resumo, três são os principais fundamentos da ideia metalista. Um, decorrente do facto de se associar à ideia de moeda – riqueza; outro, que consiste no carácter de durabilidade da riqueza metálica, e o último, enfim, oriundo da necessidade de dinheiro para a guerra. O mercantilismo exprimiu-se através de um grande número de sistemas, dos quais se destacam três formas: espanhola, francesa e inglesa.

2. Os sistemas mercantilistas
2. 1. A forma espanhola ou bulionista

A primeira – e também a mais rudimentar – forma de mercantilismo coincide com a descoberta e exploração das minas de ouro da América, e tem nascimento no país que recebe este metal precioso: a Espanha. Os principais representantes bulionistas são Ortiz, Botéro, entre outros. Para se conseguir acumular o máximo de ouro e prata, dois são os processos preconizados e empregues:

- impedir que o metal precioso saia do país, através de medidas intervencionistas em diversos campos. Atraem-se também as moedas estrangeiras para o interior do país, mediante a adopção de uma política de taxa de juros elevada; depois, a fim de impedir a saída do metal, falsificam-se as moedas;
- a balança de contratos.

Os mercantilistas compreendem a importância das trocas entre nações, mas, em contraposição, perceberam também que esse comércio acarreta um deslocamento dos stocks metálicos. Por isso, impõem medidas de controlo: os navios espanhóis que vão vender mercadorias no exterior, devem, obrigatoriamente, trazer para a Espanha o valor da sua carga em ouro. Por outro lado, os navios estrangeiros, que desembarcam os produtos dos seus países de origem na Espanha, devem, necessariamente, levar, ao partir, o valor da sua carga em produtos espanhóis.
Estes processos esbarravam na dificuldade de fiscalizar os contratos continuadamente, e a sua aplicação só seria possível por parte de um pequeno número de países. É assim que a balança de contratos vai dar lugar à balança de comércio e, com ela, o alargamento da concepção mercantilista: admite-se a entrada e saída de ouro, desde que se assegure uma balança de comércio favorável.

2. 2. A forma francesa ou colbertismo

Com o mesmo objectivo de aumentar os stocks monetários, a França vai orientar a sua acção para o fomento da indústria, uma vez que não pode recorrer às fontes directas de metais preciosos. A indústria é preferida, por um lado, em virtude da sua produção ser mais certa e regular, e, por outro, pelo facto dos produtos fabricados para a exportação terem um valor específico maior. O esforço em prol do desenvolvimento industrial é acompanhado de numerosas medidas intervencionistas: o Estado outorga monopólio de produção e regulamenta a indústria de modo estrito; há interdição do trabalho livre. A mão-de-obra representa, na produção, a parte mais importante do preço de custo dos produtos. Por conseguinte, é fixado o salário máximo, a fim de colocar os produtos nacionais em condições vantajosas no mercado internacional. A taxa de juros é também fixada pelo Estado.
Associado à importância crescente da indústria está também a noção de populacionismo, já que é favorável a produção. A intervenção do Estado vai também influir no sector do consumo: para aumentar o volume das exportações de objectos de luxo limita-se o seu consumo interno.

2. 3. A forma inglesa ou comercialista

Num período de grandes descobertas, o mercantilismo inglês vai sofrer a influência desse facto. Foi perante as potencialidades comerciais dos Descobrimentos que os comerciantes solicitaram a abolição da proibição da saída de metais precioso do país. O argumento é simples: as Índias Orientais fornecem aos compradores preciosas especiarias, as quais são revendidas ais estrangeiros a um preço muito elevado. Ora, os indígenas não querem vender contra pagamento em outros produtos, mas, sim, em metal precioso. A exportação desse metal permitiria, portanto, ao comerciante inglês, auferir lucros que se traduziriam, no fim de contas, em importação do metal precioso, com vantagem para o país.
Na concepção mercantilista, é a nação – e não o indivíduo – o comerciante. Cabe-lhe, pois, envidar todos os esforços para conseguir uma balança de comércio exterior saldada mediante a entrada de metal. No entanto, como se exige que a balança seja favorável, todo um sistema de regulamentações é elaborado: o Estado regulamenta a produção, fiscaliza as exportações e controla as vendas no exterior. Essa regulamentação é tanto mais rigorosa quando, na verdade, à preocupação metalista se vai juntar a preocupação política: é assim que a fiscalização das exportações visará também impedir a saída de produtos e matérias-primas que possam ser úteis à defesa do país ou à condução da guerra.

3. Razões para o fracasso do mercantilismo

A principal falha reside no facto dos mercantilistas atribuírem, na sua concepção de riqueza, demasiado valor ao metal precioso. Outra falha foi terem considerado a produção apenas em função da prosperidade do Estado, sem jamais examinar a relação existente entre aquela e o bem-estar individual. Por isso, focalizaram a sua acção na intervenção, em que organizam um vasto sistema de economia dirigida, cujos excessos vão travar os mecanismos económicos.
Falharam também na concepção de mercado internacional que, por estar directamente ligada à preocupação metalista, constitui um dos aspectos mais criticáveis do sistema. Trata-se de uma concepção “unilateral” e, portanto, não susceptível de aplicação geral.
Há, no entanto, alguns méritos no mercantilismo que apraz registar:

- no campo intelectual elaboraram, com vigor, a noção de “economia nacional”, baseada na unidade e na solidariedade nacional.
- no campo dos factos, criam, aplicam e desenvolvem a economia nacional tal como a conceberam.

O grande mérito do mercantilismo reside na sua função histórica de ter concorrido para que vencesse a nossa civilização a decisiva etapa de transição da economia regional para a economia nacional. Nos sistemas mercantilistas do século XVI até ao século XVIII, a principal personagem da actividade económica é o “comerciante”, sobretudo o exportador e aventureiro. É ele quem negoceia, empresta, organiza sociedades e expedições. É com o comerciante que a economia interna se desenvolve. É também dele que depende o progresso das manufacturas. Esta actividade económica que se desenvolve em redor do comerciante imprime a característica essencial do “regime capitalista” da época, mas ao lado dela subsistem actividades corporativas e artesanais.
A influência do mercantilismo faz-se sentir, directamente, durante três séculos. Posteriormente, após quase um século de hibernação, vai exercer-se de novo sobre o pensamento e sobre os factos económicos. E, no século XX, a partir da guerra de 1914 até à actualidade, a economia dirigida será revivida nas suas concepções fundamentais em grande número de países.

O pensamento económico na Idade Média

Do ponto de vista económico, a Idade Média pode ser dividida em dois períodos:

- Do século V ao XI: com as invasões dos bárbaros, desaparece a economia antiga, e o feudalismo, então na sua plenitude, cria a fragmentação económica. A produção é quase que exclusivamente rural e as trocas jamais ultrapassam o quadro local.
- Do século XI ao XIV: após o longo período de decadência e obscuridade, a civilização vai reanimando-se, a partir do século XI, para expandir-se no século XII em diante. Ressurge “uma vida económica de trocas”. As “causas” dessa reaparição encontram-se4 essencialmente no esforço desenvolvido pela Igreja e pela Realeza em prol do estabelecimento da ordem, no campo social, e da organização, no político.
O “quadro” onde se dá esse reaparecimento é a região e o agente dessa nova vida económica será a “cidade” que desperta, se desenvolve e se transforma no elemento activo da região. Dá-se a especialização em ofícios. A divisão do trabalho aumenta as quantidades produzidas. O mercado expande-se. A cidade, com as suas profissões especializadas, necessita, para a sua manutenção, dos produtos agrícolas da vizinhança. As trocas urbano-rurais generalizam-se e completam. O comércio estende-se, tornando-se inter-regional com o aparecimento das feiras. Estas são grandes mercados onde já se efectuam trocas de monta: têm por objecto sobretudo os produtos de luxo e, por vezes, agrícolas também.

§ As ideias económicas
A Igreja exerce uma poderosa influência na vida de toda a Idade Média, cujo pensamento também domina. Teólogos, canonistas e moralistas são os mestres de então e as suas fontes são os livros sagrados e, para alguns, as obras de Aristóteles, “A Moral” e, sobretudo, a “Política”. Na religião cristã, o pensamento económico vai buscar a concepção moral: tratar-se-á, para os autores da época, de “moralizar o interesse pessoal”. E esse princípio de moderação vai imprimir o seu cunho principalmente às ideias relativas à propriedade e ao lucro. A Aristóteles vai buscar principalmente a concepção do “equilíbrio” necessário a todas as coisas, intimamente ligada à anterior e expressa sobretudo através da constante preocupação de realizar a “justiça nas trocas”.

1. Princípio de moderação: tornar moral o interesse pessoal
1. 1. O princípio de moderação domina a concepção medieval de propriedade
A propriedade privada é admitida como legítima. Mas não se trata de um direito absoluto. A sua legitimidade repousa em:
- argumentos individualistas: o homem tem necessidades constantes; para garantir a sua satisfação pode apropriar-se dos bens produtivos. Mas só por esse meio poderá constituir as reservas de recursos necessários para as eventualidades futuras. Além disso, reconhece o direito natural, ao homem, a posse e o gozo das suas energias físicas e intelectuais. O direito à propriedade deve, portanto, estender-se a tudo quando a sua actividade lhe permita adquirir. Mas se a propriedade privada é legítima e confere direitos ao seu titular, também lhe impõe deveres por ter este instituído uma função social.

-argumentos de ordem social: como a propriedade se legitima por motivos de ordem social, deve-se impedir que desse direito abuse o seu titular em detrimento da colectividade. A exagerada ampliação desse direito, em benefício de um só indivíduo, é condenada, porque daí resultaria, por um lado, um excesso de fortuna (e, por conseguinte, a criação de novas necessidades supérfluas, que a moral reprova), e, por outro, ficar a maioria dos homens privada desses bens.
Em consequência de se reconhecer a legitimidade do direito à propriedade privada, aceita-se também a desigualdade de condições daí resultante. Esta se justifica, aliás, em virtude da diversidade dos serviços sociais. Todavia, jamais deve a desigualdade ser levada ao extremo: terá de ser igualmente moderada. É sobretudo para a “consciência pessoal” que o pensamento da Idade Média apela: a moderação no uso do direito de propriedade, por parte do seu titular, constitui essencialmente um assunto entre ele e Deus.

1. 2. A Idade Média reconhece a plena dignidade do trabalho humano
A ociosidade é formalmente condenada; exalta-se o trabalho, tanto manual quanto intelectual. Isso, aliás, não significa que fossem todos os ramos de trabalho igualmente apreciados. A Idade Média, directamente inspirada na distinção feita por Aristóteles em duas crematísticas, diferencia dois grupos de actividades:
- compreende todas aquelas nas quais o trabalho é aplicado à produção da riqueza directamente utilizável pelo homem. Os trabalhos agrícolas, tal como na Antiguidade, são particularmente apreciados; a seguir vêm os trabalhos industriais e os de administração;
- o segundo grupo é o daquelas actividades nas quais o trabalho aplica-se à obtenção de riquezas artificiais e, portanto, são admitidas com reserva.

2. Princípio de equilíbrio: tornar justa a troca
Na Idade Média, o pensamento económico estava subordinado à moral. E para que a justiça seja alcançada, é necessário que a troca realize um equilíbrio entre os interesses em jogo. É preciso que o preço seja “justo”. Os escolásticos vão se esforçar por deixar clara esta noção: justo preço é aquele bastante baixo para poder o consumidor comprar, sem extorsão, e suficientemente elevado para ter o vendedor interesse em vender e poder viver de maneira decente. As visões económicas e morais vão levar os teólogos a procurarem uma base para o preço, isto é, o valor.
A apreciação do justo preço sofre a influência dos costumes e da tradição e depende da perícia de pessoas alheias à discussão ou, na maioria das vezes, tão-somente da consciência dos interessados. A noção de justo preço é aplicada ao “salário”, remuneração do operário em troca do trabalho prestado. O justo salário deve permitir ao operário viver, com a sua família, de acordo com a tradição da sua classe e com os costumes locais.
A noção de justo preço aplica-se igualmente na determinação do “lucro”. O lucro do artesão deve resultar do equilíbrio entre o trabalho empregue, a aplicação da inteligência e a utilidade do serviço. Estas são as bases a considerar na fixação da taxa mínima. Se o lucro ultrapassar de muito esse limite, deve ser condenado por não estar de acordo com a noção de justiça nas trocas.
Foi ainda esta ideia de justiça comutativa que determinou a proibição do “empréstimo a juros”. Parece clara a influência de Aristóteles. No entanto, o empréstimo a juro era condenado pela Igreja antes mesmo de terem os escolásticos conhecimento das obras do filósofo grego. Mas com o passar do tempo, este princípio vai ser alvo de modificações, à medida que o comércio e a indústria se desenvolvem e os empréstimos são concedidos como auxílio à produção. Isso conduz os doutores da Igreja católica a aceitar aos poucos a actividade comercial, a riqueza que ela obtém e os empréstimos que a estimulam é a influência histórica que permitirá ao calvinismo exaltar sem reserva essa actividade.

§ As ideias monetárias
A moeda, por lhes parecer instrumento prático de justiça nas trocas e por lhes permitir avaliar bem o justo preço, atraiu, na época, a atenção geral. A moeda era coisa do rei e a ele cabia-lhe fazer com ela o que quisesse. Foi a partir do século XIII que as mutações monetárias começaram a ser mais frequentes. Os reis passaram a justificar essas mutações, do ponto de vista prático, equiparando-as a operações fiscais necessárias à boa marcha dos seus reinos. Tais razões passaram a ser discutidas quando, ao se desenvolver o comércio, se verificou representar a instabilidade da moeda um óbice à boa regularidade das transacções, que então se intensificavam. Inúmeros foram os escolásticos que se insurgiram contra o princípio das mutações monetárias.
A moderação e o equilíbrio são dois caracteres principais do pensamento medieval. Por isso, mantém-se distante do socialismo e do individualismo. Não é socialista porque reconhece a legitimidade e as vantagens da propriedade privada, instituto jurídico base da liberdade e da dignidade humana. Chega mesmo a afirmar a dignidade da personalidade humana, dando-lhe expressão económica através da reabilitação do trabalho. E leva, assim, à libertação da classe trabalhadora da condição de serva da gleba, o que constitui um dos grandes resultados práticos da Idade Média. Não é também individualista: concebe um interesse limitado, em todas as suas manifestações, pelo interesse da comunidade humana. Procura a conciliação entre os direitos do Estado e os do indivíduo, através da constante preocupação com o aperfeiçoamento do género humano.

O pensamento económico da Grécia

A predominância da filosofia reflecte-se na ausência de um pensamento económico. Ainda assim, há três orientações que dominam a prática económica por esta altura:

1. A ideia de preponderância do geral sobre o particular;
2. A ideia de igualdade;
3. As ideias de desprezo da riqueza.

1.A Grécia está dividida em cidades independentes, sempre em guerra umas com as outras. O sacrifício do indivíduo à cidade é a regra. Os problemas de bem-estar individual se subordinam aos se segurança e prosperidade gerais.
2.A igualdade, no aspecto ético, domina todas as manifestações teóricas do espírito grego. O Estado ideal dos gregos deveria compor-se de determinado número de habitantes, a ser este mantido estável. São condições que parecem favoráveis à manutenção da boa ordem política. A economia é, assim, eclipsada pela filosofia. Platão, por exemplo, estuda a divisão do trabalho, chegando mesmo a considerar com muita subtileza a sua necessidade e as suas vantagens. Indica, entretanto, não ser isto possível senão havendo uma população densa. Mas prefere privar-se das vantagens de uma produção dividida a se sujeitar aos inconvenientes que, segundo ele, por certo adviriam de uma população numericamente importante.
3.A atitude filosófica conduz, enfim, ao desprezo da riqueza. Diz Platão: “O ouro e a virtude são como dois pesos colocados nos pratos de uma balança, de tal modo que um não pode subir sem que desça o outro”. A felicidade reside na virtude, e a riqueza é um obstáculo à felicidade; logo, deve desistir-se de obtê-la. A preocupação essencial do homem deve ser a vida da alma; vêm em seguida os cuidados com o corpo e4, em último lugar, com a riqueza.

Nos principais tratados de filosofia encontram-se espalhados os primeiros elementos das grandes doutrinas económicas: as correntes individualista, socialista, intervencionista, cuja evolução se verificará até aos nossos dias.

1.Corrente Individualista: surge como reacção ao meio ambiente. Caracteriza-a o facto de contrapor à razão de Estado a razão individual. Contesta-se o desprezo da riqueza e há uma primeira tentativa de reabilitação do trabalho.
2.Observa-se, em segundo lugar, uma importante corrente socialista, cujo principal representante é Platão. Na “República”, Platão defende que, em relação ao Estado ideal, a ideia geral consiste na implementação de um Estado onde reine a justiça e no qual possa o cidadão consagrar o máximo do seu tempo aos estudos filosóficos e à actividade política. Com este objectivo em vista, a parte reservada à economia deve limitar-se ao mínimo necessário. O trabalhador manual é excluído dessa organização comunista: a propriedade privada é-lhe concedida desdenhosamente. Coimerciante e artesão só merecem o desprezo de Platão; em contraposição, o agricultor é objecto de certa consideração. Nas “Leis”, Platão expõe um socialismo diferente e bem mais moderado. Não se trata aí de um projecto ideal e utópico, mas de um programa susceptível de realização imediata a fim de melhorar o Estado ateniense da sua época. A finalidade é a mesma: estabelecer mais justiça e organizar a sociedade de modo a que possibilite os meios de moderar o homem e os seus desejos materiais, e, assim, ficar livre para dedicar-se aos cuidados do espírito. Daí resulta um regime autoritário, regime de transição, a fim de preparar o sistema ideal do futuro.
O comunismo de Platão é uma doutrina de renúncia: busca uma fórmula intermediária de limitar as aspirações, enquanto o socialismo contemporâneo procura soluções que permitam alcançar o máximo de satisfação. O comunismo de Platão concebe a transformação da sociedade segundo uma concepção da moral e não em função de uma necessidade histórica; este o ponto de vista “utópico”para a doutrina marxista e que, por conseguinte, os separa.
3.Em terceiro lugar encontra-se uma corrente intervencionista, representada por diversos pensadores, dentre os quais, Aristóteles. Na sua “Política”, faz uma severa crítica ao comunismo de Platão. Se o comunismo fosse o melhor regime, diz, de há muito ter-se-ia realizado. Insiste na oposição existente entre o comunismo, de um lado, e a propriedade e a família, de outro. E tão arraigadas estas duas últimas instituições na psicologia humana que parece impossível extirpá-las. Adversário de Platão no que concerne à organização comunista da sociedade, Aristóteles aproxima-se dele pelo desprezo que vota à liberdade individual e à propriedade privada. É, também, partidário da supremacia do Estado e, de certo modo, do igualitarismo. Na sua teoria sobre a população, recomenda medidas intervencionistas severas de limitação da reprodução, a fim de manter a estabilidade demográfica. Nesse, como em muitos outros campos, dá ao Estado preponderância sobre o indivíduo.

§ As ideias monetárias
Aristóteles, na sua “Política”, faz o histórico da moeda e mostra ter tido a sua invenção por fim obviar as dificuldades da troca directa. A troca por meio de moeda, operação abstracta, suprime os inconvenientes da permita ou troca directa, acto concreto. Assim, estabeleceu ele uma distinção entre as duas economias sucessivas:
- a crematística natural, economia doméstica, a qual julga boa e necessária;
- e a crematística não natural, economia mercatil, censurável por levar o homem a auferir da troca um proveito, que é contrário à “natureza”.

As ideias de Aristóteles, baseadas na aparição da moeda na vida económica, profunda e durável influencia exerceram sobre as doutrinas económicas da Idade Média e outras doutrinas mais recentes:
- os fisiocratas, no século XVIII, delas se servirão para distinguir comércio de tráfico;
- Carey as retomará no século XIX, conferindo-lhes uma posição fundamental nas suas teorias;
- Karl Marx usará a distinção aristotélica e, na sua “Crítica da Economia Política”, de 1859, examinará separadamente a “economia simples e a economia capitalista”; e tal distinção ocupará lugar de destaque na sua obra;
- no século XX, Charles Bodin, acompanhando a divisão aristotélica, falará em “economia simples” e “economia derivada”.

Há ainda, em Aristóteles, uma observação bastante precisa relativamente às diversas funções da moeda: indica servir esta, a um tempo, de intermediária das trocas, de instrumento de comparação de valores e de reserva de valor. Galliani, Hutcheson e Adam Smith vão retomar estas posições no século XVIII.

Platão, ao contrário, dá ênfase ao aspecto nominal do valor da moeda. Nas “Leis” insiste na moeda-sinal. Seria, contudo, exagerado crer que a concepção der Platão se filia, de modo reflectido e científico, a uma tese nominalista. Razões várias existem que podem explicar a sua preferência:
- a omnipotência do Estado;
- no século V, a Grécia passou por rápidas transformações económicas e o brusco desenvolvimento da riqueza mobiliária é acompanhado de um desequilíbrio social que atemoriza os filósofos;